por Bruno Medina
A famigerada expressão “inclusão digital”, quando cunhada, costuma remeter de imediato à imagens edificantes, como a de uma criança, habitante dos cafundós do Brasil, resolvendo sua lição de casa com auxílio da Internet ou, quem sabe, do idoso humilde, tendo a chance de regularizar a aposentadoria de maneira rápida e eficiente nos terminais da Previdência. Mas, como tudo na vida, há também o outro lado da moeda.
Mais precisamente, a face que representa, por exemplo, uma tia minha, mulher de meia-idade que, faz dois anos, não sabia enviar e-mails, e que hoje troca o dia pela noite plantando leguminosas na fazendinha do Orkut. Aposto que o estimado leitor, assim como eu, também conhece histórias parecidas, ou pelo menos ficou sem entender nada quando recebeu de alguém, pela primeira vez, um unicórnio de presente.
Pois, o que a princípio começou como um inofensivo passatempo, nas palavras da minha tia, “uma forma de interagir com as novas amigas e expandir a rede de contatos virtuais”, hoje desperta comentários enviesados dos filhos durante o almoço de domingo. Não só nessa família como em muitas outras, suponho, a fazendinha virou uma praga a ser exterminada. Na ocasião, entre risos nervosos e queixas rebatidas em tom de brincadeira, espocou um episódio que dá ideia da dimensão do problema.
Dizia o marido “traído” pelo aplicativo que a esposa andava acordando no meio da noite para colher abóboras e dar feno aos cavalos. “É vício”, reconheceu minha tia antes que os outros o fizessem. Ela própria admitiu usar uma calculadora para programar a maneira mais dinâmica de aproveitar seu terreno, levando em consideração quantos dias cada muda leva para atingir o ápice.
E não para por aí: confessou que freqüentemente emprega o cartão de crédito na compra de objetos para sua fazendinha (nesse momento alguns queixos caíram em torno da mesa), e que criou uma segunda propriedade, a qual também administra, em nome do próprio cachorro!
Numa breve googada, deparei-me com incontáveis relatos análogos, alguns bem engraçados na verdade, e até com uma lista que descreve em detalhes os sintomas mais comuns dos obcecados pelo jogo. Há também uma comunidade, que funciona como espécie de AA virtual, onde fazendeiros de mentirinha choram pitangas por plantações arruinadas por serões nos empregos, relatam ambições desmedidas de possuir galinhas e porquinhos e até dão dicas de como despistar a implicância dos amigos e parentes.
Curioso é recordar dessa mesma tia, anos atrás, debochando da vizinha, que passava as tarde de sábado enfurnada no bingo, enquanto o marido enchia a cara no bar. Quem te viu, quem te vê… a melhor tirada do almoço, no entanto, foi da minha mãe, que sugeriu ao meu tio comprar um trator velho, meia-dúzia de bezerros e alugar um terreno nos arredores da cidade, pra ver que bicho dá.
Se a habilidade e a dedicação demonstradas no jogo se confirmarem na vida real, vai que até dá pro casal fazer um dinheiro. O problema é que o projeto já foi de cara desacreditado pelos presentes; em uníssono, sentenciaram que o entusiasmo cairia por terra na primeira vez que fosse necessário limpar um curral de verdade.

é. esse vício é danado mesmo. já joguei online e depois de duas semanas perdidas preferi apagar minha conta. não me arrependo.
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