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O Ministério da Saúde financiou a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher de 2006 (PNDS), revelando algo que já se imaginava – a redução da média de número de filhos por mulher (de 2,5 para 1,8, entre 1996 e 2006). Há várias explicações para isso, como o acesso à informação sobre anticoncepção e aos próprios métodos em si, além da inserção cada vez maior da mulher no mercado de trabalho. É uma boa notícia. Realmente não dá para ter filhos sem um mínimo de planejamento.
Quando digo isso, não me refiro somente às condições financeiras. Mas às próprias condições internas de sermos pais e mães. Essa opção significa mudarmos nosso modo de viver – de um mais individualista para outro em que muitas vezes não sobra nem tempo para nós mesmos. É algo a se pensar. Nem todos têm essa disposição. Ganha-se de um lado e perde-se do outro. Acredito que a questão financeira é a que mais pega os casais na hora de considerarem o tamanho da família - tanto é assim que aquelas com filhos únicos têm aumentado. Algumas de suas justificativas é que não poderiam dar o melhor, materialmente, para mais de um.
As escolas, por exemplo, estão cada vez mais caras e, independentemente da qualidade das públicas, não há muito entusiasmo de se colocar as crianças nelas. Os serviços de saúde nem se fale, principalmente se considerarmos as clínicas e hospitais de grife. E a diversão? Bem, hoje tudo é comercializado a preços altos (há espetáculos infantis em que o valor mais em conta é de R$ 60).
Antigamente, os serviços eram gratuitos e a diversão mais acessível (havia menos opções também). E os pais querem dar tudo de melhor que o dinheiro compra. Sentem-se culpados quando não podem fazer isso. Muitos chegam a adquirir empréstimos para realizar uma festa de aniversário em um bufê incrementado. Há várias famílias que pagam escolas caríssimas, algumas bilíngües, para garantir o acesso do filho ao mercado de trabalho top. Exigem das crianças coisas que nem sempre podem dar. E as escolas, com suas estratégias de marketing, pegam nesse ponto: afirmam que o futuro dos filhos está garantido se estudarem em suas dependências.
Como se fosse possível... Não sabemos quais serão as reais necessidades que teremos ao longo da vida. Tentamos antecipá-las, como se pudéssemos preveni-las. Ou prevenir o sofrimento do crescimento, quando nos deparamos com dificuldades e frustrações. Ainda mais quando as frustrações vêm de necessidades criadas e plantadas por nós em nossos filhos, das quais também somos vítimas. Há certa confusão de valores, pois às vezes nem precisamos delas para sermos felizes (carro último tipo, roupas caras, viagens inesquecíveis).
A felicidade, nesses casos, acaba sendo confundida com o acesso a coisas caras e a um patamar profissional sonhado pelos pais. Ficam de lado a família e a possibilidade de contar com sua rede na qual se apoiar e receber amor, o que inclui irmãos. Coisas tão necessárias aos seres humanos e que o dinheiro não pode comprar. Não devemos esquecer que o maior medo do homem é justamente a solidão.
Sem dúvida o controle do nascimento é uma coisa necessária por diversas razões, como a de podermos oferecer aos nossos filhos uma boa condição de vida. O que envolve também uma dimensão maior como, por exemplo, a questão ambiental de divisão de recursos naturais e controle da poluição, ou ainda dos benefícios sociais. Mas como diz o ditado, nem tanto ao sol e nem tanto a lua.
(Ana Cássia Maturano é psicóloga e psicopedagoga)